sexta-feira, 7 de abril de 2017


Ele esteve na minha cabeça o resto da tarde. Prometi a mim mesma que iria saboreá-lo devagar, um momento após o outro, mas depois lembrei-me de quem sou e essa ideia perdeu todo o sentido.
A voz dele cortou-me a meio um cigarro, e do outro lado do telefone, ouvia-o rir, enquanto me embrenhava no fumo que é, para mim, desde sempre, essa coisa dos sentires. 
Não sei se a salada do almoço, é para repetir um destes dias, porque não me lembro ao que sabia. Lembro-me da milimétrica falha na sobrancelha esquerda dele, e do momento em que tirou os óculos escuros para ver, sem filtros, a minha falta de resposta à pergunta mais difícil que me fizeram, em meses. 
Quando o frenesim surge, já não há nada que o pare. A obsessão cresce e consome. Sempre assim foi, sempre assim será.
O espelho que vejo nele exerce uma estranha atracção sobre mim. É a primeira vez, porque normalmente, o que se passa é exactamente o contrário. 
A forma como roubou horas aos meus dias e às minhas noites, de forma tão desempoeirada, intriga-me. Gosto do despretensiosismo, das mãos em cima da mesa, de quem nada tem a esconder e está decidido a jogar, sem ainda saber bem as cartas que lhe vão calhar...